Projeto Ubuntu — Coletivo de Agricultores Familiares Produtores de Plantas Aromáticas, Condimentares e Medicinais para Obtenção de Óleos Essenciais e Hidrolatos

Onaur Ruano

Introdução

A partir da inclusão pelo Ministério da Saúde da Aromaterapia entre as práticas referendadas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares para o Sistema Único de Saúde – SUS (Portaria nº 702, de 21/03/2018), os Óleos Essenciais e Hidrolatos passaram a ser reconhecidos com finalidades terapêuticas destacadas, sendo gradualmente incorporados como complementares a diversas práticas terapêuticas. Essa nova realidade gera à Agricultura Familiar Agroecológica a oportunidade de produzir Óleos Essenciais e Hidrolatos para usos terapêuticos, aromáticos, condimentares e cosméticos, constituindo-se como mais uma alternativa de renda na Unidade Familiar de Produção.

A ampliação da busca por produtos naturais — especialmente Óleos Essenciais, Hidrolatos e seus derivados — somada à inclusão da Aromaterapia na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, fez com que a demanda por esses produtos aumentasse de forma constante. Com isso, tornou-se necessária a ampliação da produção desses insumos vegetais.

Estudo realizado por Brizzo & Rezende (2022), analisando o mercado brasileiro e mundial entre 2011 e 2020, identificou que o Brasil importou, em média, entre 1,7 mil e 2 mil toneladas de Óleos Essenciais por ano, gastando cerca de US$ 75 milhões anuais. O principal produto importado foi o Óleo Essencial de Mentha arvensis (aproximadamente 500 toneladas/ano, representando US$ 9,7 milhões). Também foram importados, em volumes significativos, Óleos Essenciais de Limão Siciliano (179 t/ano; US$ 4,9 milhões), Eucalipto (203 t/ano; US$ 3,5 milhões), Lavanda (77 t/ano; US$ 2,8 milhões) e outros grupos que, somados, representaram cerca de 348 toneladas/ano (US$ 23,8 milhões). Os demais óleos representaram cerca de 5,5% das importações totais no período.

Entre 2022 e 2024, foram registrados 106.077 atendimentos em Aromaterapia pelo SUS, representando crescimento de 181% no período (Azevedo, 2025).

Considerando o uso nobre e delicado dos Óleos Essenciais e Hidrolatos — seja na Aromaterapia, Cosmética Natural, Perfumaria, Dermatologia ou em outras aplicações terapêuticas e cosméticas — a pureza desses compostos e a idoneidade da fonte produtora exigem padrões rigorosos de boas práticas, desde o cultivo até o processamento final. Nesse contexto, o cultivo em Sistema Agroflorestal Agroecológico, com Certificação de Conformidade Orgânica, representa o padrão mais adequado. Da mesma forma, as etapas pós-colheita e a destilação devem seguir critérios estritos de qualidade, desde a recepção da matéria-prima até a embalagem dos produtos finais.

O rendimento de Óleos Essenciais na maioria das plantas aromáticas destiladas por arraste em vapor é muito pequeno, variando entre 0,2% e 1,5% (Volume/Peso) de óleo essencial obtido a partir da matéria vegetal fresca. Essa baixa concentração exige grandes volumes de plantas para se obter quantidades adequadas de Óleos Essenciais e Hidrolatos. Essa demanda é excessiva para pequenos agricultores agroecológicos trabalharem isoladamente. Entretanto, um coletivo de famílias articuladas em rede, com planejamento conjunto das espécies, volumes e cronogramas de produção, organizado em torno de uma Central de Destilação, torna viável a sustentabilidade de um empreendimento dessa natureza.

Com essa compreensão, a Pacha Mama Agroecologia idealizou e iniciou a coordenação do Projeto Ubuntu, visando organizar um coletivo de pequenos agricultores agroecológicos — com Sistemas Agroflorestais implantados (ou em implantação) e certificação orgânica (ou em processo de obtenção) — situados dentro de um raio de 80 km de Ibiporã (PR). Essa delimitação decorre do fato de a Central de Destilação estar localizada na Chácara Pacha Mama, e distâncias maiores reduziriam a qualidade da matéria-prima transportada após a colheita, além de elevar o custo logístico. Participam do projeto 11 famílias agricultoras, que, além dos cultivos principais de seus sistemas, destinam parte de suas áreas ao cultivo de plantas aromáticas, condimentares e medicinais previstas no planejamento do projeto.

Organização no Projeto Ubuntu

O modelo de gestão do Projeto Ubuntu não assume a formalidade de associação ou cooperativa, mas está ancorado na Pacha Mama Agroecologia, responsável pela gestão da Central de Destilação, coordenação do projeto, comercialização e cumprimento das exigências legais e sanitárias. A central possui instalações de Agroindústria-Laboratório de pequeno porte, licenciadas pela Vigilância Sanitária municipal.

Adesão das Famílias

A inclusão de famílias no projeto ocorre por:

  • indicação por famílias participantes que já conhecem o perfil desejado e verificam previamente o interesse da nova família;
  • procura espontânea de agricultores que conhecem o projeto e manifestam interesse em participar;
  • busca ativa realizada pelos membros do projeto devido a necessidades específicas de produção.

Perfil da Unidade de Produção Familiar e da Família

As famílias participantes são gestoras de unidades agroecológicas (ou em transição), preferencialmente adotando Sistemas Agroflorestais Agroecológicos, podendo ou não possuir Certificação de Conformidade Orgânica. Os encontros anuais promovem debates sobre atuação coletiva organizada, certificação orgânica e integração à Rede Ecovida de Agroecologia — situação já alcançada por seis das onze famílias.

Para adesão, é realizada uma visita técnica à unidade familiar para conhecer o sistema de produção e avaliar a área destinada ao cultivo. Havendo viabilidade, é elaborado um planejamento conjunto para implementação das espécies e cronogramas. Como muitas das plantas destinadas à obtenção de Óleos Essenciais e Hidrolatos não fazem parte dos cultivos usuais das famílias, o primeiro ciclo recebe acompanhamento técnico completo, incluindo obtenção de mudas, plantio, manejo, colheita e transporte à Central de Destilação.

A relação entre as famílias parceiras e a Central de Destilação não se configura como compra e venda, mas sim como divisão do produto final obtido: metade dos volumes de Óleo Essencial e Hidrolato (ou valor equivalente) é destinada à família produtora, e metade à Central de Destilação.

Bibliografia

AZEVEDO, R. Práticas Integrativas e Complementares em Saúde crescem 70% e ampliam o acesso ao cuidado integral no SUS. Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://tinyurl.com/es3mf2up. Acesso em: 12 jul. 2025.

BRIZZO, H. R.; REZENDE, C. M. O mercado de Óleos Essenciais no Brasil e no mundo na última década. Química Nova, v. 45, n. 8, p. 949–958, 2022.

Onaur Ruano é Agricultor Agroecológico, fundador da Pacha Mama Agroecologia, idealizador e coordenador do Projeto Ubuntu.
contato@pachamamaagroecologia.com.br