Projeto Ubuntu

O cultivo comercial de Plantas Aromáticas, Condimentares e Medicinais é uma excelente oportunidade de atividade geradora de renda para pequenos agricultores, além de contribuir com a diminuição da pressão exercida pelo extrativismo, muitas vezes não sustentável, que muitas das espécies dessa categoria sofrem nos seus ambientes naturais. Corrêa Júnior & Scheffer (2013), entendem mesmo que, sem o incentivo de boas práticas para o cultivo dessas espécies, um cenário futuro negativo se apresenta como inexorável.

O fornecimento de matéria-prima derivada de plantas medicinais, aromáticas e condimentares está em risco. As áreas onde estas plantas se desenvolvem naturalmente estão cada vez mais reduzidas pelas pressões exercidas pelo desmatamento, agricultura e urbanização, entre outros. Por outro lado, não existe área cultivada sufi ciente para atender toda a demanda. Estes fatos têm colocado em risco certas espécies mais populares para consumo e de baixa ocorrência em ambientes naturais. Atualmente há consenso de cientistas, indústrias e organizações ambientalistas que uma das iniciativas para reduzir a pressão sobre o ambiente e preservar os recursos genéticos é o desenvolvimento de sistemas que permitam o uso sustentável das espécies exploradas, por meio de cultivo com base em pesquisas agronômicas, visando produzir matéria-prima com qualidade e em quantidade.Boas Práticas Agrícolas (BPA) de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares. Corrêa Junior & Scheffer (2013). Acessado em 18 de janeiro de 2020.

A classificação das plantas desse grupo como Aromáticas, Condimentares ou Medicinais não é uma classificação botânica, sendo meramente didática, baseada no uso predominante de cada uma delas. Praticamente todas elas poderão ser enquadradas em qualquer dessas categorias didáticas, dependendo do uso principal que se esteja fazendo dela. Como exemplo, pode-se usar infusão de hortelã comum (Mentha spicata) como medicinal, para tratar problemas digestivos como má digestão, flatulência, enjôo ou vômitos, além de ter, também, efeitos calmantes e expectorantes; uso como condimentar como em quibes, tabule, refrescos; ou como aromática pelo uso do seu óleo essencial (OE) e hidrolato em perfumes, cosméticos, mas também como medicinal em Aromaterapia. Esse mesmo raciocínio se aplica para a grande maioria das plantas desse grupo, tendo sua classificação didática fundamentada no uso predominante que se dê para cada uma delas.

À partir da inclusão pelo Ministério da Saúde da Aromaterapia entre as práticas referendadas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares para o Sistema Único de Saúde, através da Portaria N° 702, de 21 de março de 2018, os Óleos Essenciais e Hidrolatos passam a ter papeis terapeuticos destacados e reconhecidos. Essa nova realidade faz com que a popularização e demanda por esses produtos das plantas sejam ampliados, exigindo consequente ampliação na sua produção. Obviamente, considerando o uso nobre e delicado para alcançar os melhores resultados esperados do seu uso, seja na Aromaterapia, seja na Cosmética Natural e Perfumaria, seja na Dermatologia ou outros usos medicamentosos, a pureza desses compostos assim como a idoneidade da fonte produtora, devem seguir critérios rigorosos de boas práticas desde o plantio e cultivo, até a colheita e processamento. Nesse contexto, o cultivo dessas plantas em Sistema Agroflorestal Agroecológico, com obtenção de produto com Certificação de Conformidade Orgânica, é o que consideramos mais adequado. Complementarmente, os procedimento pós-colheita e a destilação dessa matéria prima deverão seguir padrões igualmente rigorosos de boas práticas, desde o recebimento do material vegetal até a embalagem dos produtos finais.

O rendimento de OE da maioria das Plantas Aromáticas destiladas por arraste à vapor é muito pequeno, ficando a grande maioria delas entre 0,2% a 1,5% (Volume/Peso) de OE da matéria fresca vegetal destilada. Como exemplo, na nossa experiência de destilação de Lavanda (Lavandula dentata), em janeiro de 2020, para a obtenção de 1 litro de OE foram necessárias 116 kg de planta (folhas, flores e ramos).

Em virtude dessa baixa concentração de OE presente nas plantas de interesse para a Aromaterapia, Medicina e produção de cosméticos e perfumes, há a necessidade do cultivo de uma quantidade muito grande de plantas para que se obtenha quantidades satisfatórias de OE e Hidrolatos para atendimento dessa demanda, tarefa que pequenos agricultores agroecológicos, isoladamente, não conseguem dar conta. Por outro lado, um coletivo de famílias de agricultores articulados em rede, com planejamento do que, quanto e quando cada um irá produzir, e organizados em torno de uma central de destilação dessa matéria prima produzida é um formato organizativo com possibilidades de se estruturar e dar sustentabilidade a um empreendimento dessa natureza. Com essa compreensão a Pacha Mama Agroecologia idealizou e iniciou a coordenação do Projeto UBUNTU, com a finalidade de organizar um coletivo de pequenos agricultores agroecológicos, já com Sistemas Agroflorestais implantados ou em implantação em cultivos diversos, que já tivessem o Certificado de Conformidade Orgânica (ou em processo de obtenção), circunscritos dentro de um raio de amplitude de 80 km de Ibiporã (PR) como referência central. A escolha dessas coordenadas para território de trabalho se deu em virtude de estar localizada na Chácara Pacha Mama em Ibiporã a central de destilação, e que distâncias maiores prejudicariam o transporte após colheita da unidade de produção até a central de destilação.

Para muitas pessoas o nome do projeto desperta curiosidade. Por quê UBUNTU ?

Ubuntu é uma palavra existente nas línguas zulu e xhosa, faladas na África do Sul, que exprime um conceito moral, uma filosofia, um modo de viver que se opõe ao narcisismo e ao individualismo tão comuns em nossa sociedade capitalista neoliberal. Pode ser uma alternativa ecopolítica para uma convivência social e planetária pautada pelo altruísmo, fraternidade e colaboração entre os seres humanos. Ubuntu significa: “Eu sou porque nós somos” ou, em outras palavras “Eu só existo porque nós existimos”.” Leia mais em Ubuntu: "Eu sou porque nós somos" - José Lima. Acessado em 11 de janeiro de 2020.

Quando nos damos conta de que uma das principais características desse projeto é que sua sustentabilidade depende da soma de esforços de um coletivo, e que nenhum dos participantes teria condições de ter sucesso em um empreendimento como este como pequenos agricultores, é natural que o esforço em manter uma rede em harmonia, com princípios de cooperação e solidariedade entre seus membros, voltados para um objetivo comum, viceja e se fortalece.

Os Óleos Essenciais e Hidrolatos são substâncias naturais complexas em sua composição, tendo, muitas vezes, centenas de moléculas de diferentes compostos combinados e atuando em sinergia para que se tenha a completude da sua ação. Diferentemente de “medicamento” fabricados na indústria farmacêutica à partir de compostos isolados, essa complexidade presente nos OE e Hidrolatos é que conferem sua grande virtude de efeitos igualmente complexos, e sustentabilidade e persistência na sua ação. A inocuidade de um determinado antibiótico sintético adquirida depois de um determinado tempo de uso, deixando de ter capacidade de debelar uma infecção, é um exemplo claro disso. Enquanto para meios homogêneos e padronizados de substrato com antibióticos sintéticos, portanto com ingredientes ativos isolados a emergência de bactérias resistentes em uma população de suscetíveis é facilitada, em meios em que um determinado OE com ação antibiótica, com toda sua complexidade de composição atua, a emergência de tipos bacterianos resistentes ao efeito antibiótico torna-se praticamente impossível dentro de uma população suscetível. A combinação gênica necessária em uma mutação dessa natureza é, probabilisticamente, impossível.

Quimicamente falando, os óleos essenciais são formados por estruturas de terpenos, fenólicos, fenilpropanóicos, alifáticos não terpenos, heterocíclicos; e funções químicas de alcoóis, cetonas, aldeídos, ácidos carboxílicos, ésteres, óxidos, acetatos e vários outros - quase sempre apresentando uma mistura bastante complexa entre esses elementos. Por exemplo, o óleo essencial de rosas possui cerca de 300 componentes, cada qual com sua característica e ação bioquímica no organismo humano. Isto explica, em partes, porque um determinado óleo pode agir contra um fungo da unha do pé e, ao mesmo tempo, atuar como antidepressivo e calmante. No entanto, alguns resultados só são alcançados por meio da sinergia entre esses componentes. Ou seja, eles dependem da interação do todo, desde os elementos que estão em maior proporção no óleo, chamados de "ativos majoritários", como dos que estão em menor proporção. Pesquisas indicam que o timol, ativo majoritário do óleo essencial de tomilho, não possui a mesma eficiência do óleo contra algumas espécies de bactérias - mesmo sendo ele (o timos) um poderoso anti-séptico. E isto se repete para vários outros óleos e seus ativos, embora, é claro, não seja uma regra.Óleos Essenciais - Wagner Azambuja. Acessado em 11 de janeiro de 2020.

Da mesma forma que a família na Unidade Central de Destilação do coletivo de pequenos agricultores em rede, assim como cada uma dessas famílias, ao terem o Óleo Essencial em mãos, resultado do seu trabalho, compreendem que “Eu sou porque nós somos”, se pudéssemos imaginar o Óleo Essencial conversando com os compostos presentes na sua complexidade para que ele pudesse ser o que é, certamente diria “Eu sou porque nós somos”.

Além do cultivo de Plantas Aromáticas e Medicinais para a extração de Óleos Essenciais e Hidrolatos na Pacha Mama Agroecologia (Ibiporã), estamos constituindo a organização de um coletivo regional de Agricultores Agroecológicos no Projeto UBUNTU, com cultivos diversos em Sistema Agroflorestal Agroecológico, com Certificação de Conformidade Orgânica ou em processo de certificação, com dedicação de parte de suas áreas para cultivo de algumas espécies dessas plantas para o Projeto UBUNTU. Já fazem parte do projeto as famílias das Unidades Familiares de Produção A’Nu Agricultura Natural (Ibiporã), Conecte Plante (Londrina), Estância Baobá (Jaguapitã), Novo Amanhecer (Londrina/Lerroville), Resistência Camponesa (Imbaú), Semear Ecológico (Londrina) e Terra Planta Orgânicos (Sabáudia).